Outdoor feito com dinheiro de verdade

Ontem passou no Jornal Nacional uma matéria sobre a miséria do Zimbábue, que tem inflação de 98% ao dia, expectativa de vida de irrisórios 37 anos (no Brasil é de 72 anos) e que teve sua economia extinta pelo atual presidente e ditador Mugabe. Agora o país adotou o dólar americano, o euro e rand sul-africano, três moedas externas e fortes internacionalmente, para tentar não se sabe como, reduzir a inflação.

Coincidentemente, encontrei hoje na web imagens de uma campanha publicitária de um jornal zimbabuano, o The Zimbabwean. A campanha possui uma página no site do jornal, acesse por aqui, onde se vê várias fotos de peças publicitárias construídas com dinheiro, com as notas da moeda falida do país.

As peças exibem as seguintes frases:

“Fight the regime that has crippled a country”
Lute contra o regime que aleijou a nação

“It’s cheaper to print this on money than paper”
É mais barato usar dinheiro do que imprimir em papel

“Thanks to Mugabe this money is wallpaper”
Graças a Mugabe este dinheiro é papel de parede

Veja abaixo algumas das fotos das peças nas ruas e não deixe de acessar a página da campanha, aqui, para conferir o texto (em inglês) e as demais fotos.

thezimcampout

thezimcamp1

As notas foram usadas também como folders, sendo distribuídas em bares e nas ruas. A única alteração foi a inclusão de carimbo com as frases acima em cada uma das cédulas. Quem recebia ficava estupefado.

Vi neste blog e depois busquei mais informação no Google, claro! ;)

O país do futuro e o futuro do país

Todos nós já ouvimos a célebre frase-mito-dito-popular de que o Brasil é o país do futuro. Por eras nosso povo transmitiu esta frase de geração para geração e este futuro de ditas belezas e desenvolvimento nunca que chegava. Eu mesmo, que até então vivi apenas 28 anos, não tenho como mensurar a quantidade de vezes em que ouvi isso e que pensei, do alto da minha montanha de otimismo: “ainda verei este bendito e predito futuro”.

O fato é que os anos passam e a gente vai ficando mais duro. Duro no sentido de que passamos a ter que arcar com contas que antes eram pagas pelos pais (como eles pagavam tanta coisa?!) e no sentido de que deixamos aos poucos de acreditar em fábulas (e eu nem estou falando do Saci ou do Papai Noel). Mas mesmo assim cá estou eu, mais uma vez em minha vida, declarando acreditar que estamos perto (uns 20 ou 30 anos) de ver enfim o Brasil se tornar O País do Futuro.

A Crise financeira (em maiúscula mesmo) que se alastra mundo afora, ainda que sendo uma pedra no sapato do país, será a médio prazo mais benéfica para nós do que para os outros do BRIC (Russía, Índia e China) e para os colossos EUA e UE. Não sou especialista em economia, apesar de gostar muito do assunto, mas acho que dá para fazer algumas ponderações e até mesmo acertar algumas.

Hoje temos o sistema financeiro e bancário mais eficiente e um dos mais sólidos do mundo. Claro que o Dólar deu uma disparada, mas era esperado porque o Real havia se valorizado frente a moeda estadunidense mais do que qualquer outra no mundo e, mais cedo ou mais tarde, um ajuste iria acontecer. E o Dólar disparou justamente porque eles, os investidores externos, estão tirando suas verdinhas daqui. É a velha lei de mercado, quanto maior a oferta e menor a demanda, menor o preço, quanto maior a demanda e menor a oferta (o que está acontecendo com o Dólar agora) maior o preço. É por isso que o Banco Central (BC) faz leilões de dólares. Para que a moeda continue “circulando” no mercado financeiro e que, com isso, não falte este produto no mercado, o que elevaria mais ainda o seu valor. Não é difícil entender o sistema financeiro se tivermos uma boa dose de paciência para ler um ou outro artigo por aí e se acompanharmos, mesmo de longe, os acontecimentos do mercado. E olha que eu sou um leigo, sou publicitário oras!

Eu digo que o sonho do nosso Brasil ser o país do futuro vai se realizar por uma série de fatores que podemos observar nos últimos anos e, por incrível que pareça, por causa da Crise atual. Nos últimos anos o Governo conseguiu (e isso não é mérito só de Lula, mas principalmente de FHC e das equipes do alto escalão) realizar uma série de reformas, mesmo que incompletas, que deram um novo rumo ao país. Hoje temos a Previdência Social totalmente informatizada e com seus computadores ligados a outros sistemas públicos importantes como a Receita Federal, o que dificulta fraudes e aumenta a arrecadação. Temos uma fiscalização efetiva e que pude com vigor empresas que burlam as regras para não pagar os impostos, altíssimos, mas importantes para o funcionamento da máquina. E temos visto os mais pobres começar a consumir produtos que não são somente os de primeira necessidade, o que indica progressão na pirâmide das classes. Tem o tal do PAC, que está levando obras (mesmo que infelizmente algumas sejam megafaturadas) para vários cantos do país. Tivemos uma explosão de crédito imobiliário que está transformando cidades inteiras (Salvador será outra daqui a 5 anos!) e movimentando a economia como não acontecia destes os anos 70. E olha que o crescimento dos anos 70 foi insustentado e aumentou o endividamento internacional do país. Exportamos mais do que importamos e isso se repete já há uns dois ou três anos quase ininterruptamente mês após mês. A balança comercial está positiva e o fluxo de caixa hoje já é de mais de US$ 200 bilhões de dólares, o que dá para pagar os juros da dívida e ir quitando-a aos poucos. Aí, depois de tudo isso, o Brasil cresceu ano passado uns 5,3%, recebeu o cartão verde para investimentos internacionais, viu jorrar dinheiro para cá e então a Crise chegou. Não está sendo fácil hoje para muitas empresas, mas a perspectiva é boa para o médio prazo. Repito, eu sou leigo e posso estar errado, mas acho que a Crise pode ser mais benéfica do que maléfica pelo menos para nós.

A GM nos EUA está cambaleando, o Citigroup precisou de grana do governo de lá, eles e vários países da UE injetaram bilhões em empresas, maculando e muito o livre mercado (foi necessário, mas não é bom) e por aqui o que houve? Os bancos reduziram o crédito, empresas perderam valor de mercado na Bolsa e as ações da minha namorada despencaram. Só para citar algumas coisas ruins. Mas o fato é que as vendas do comércio neste fim de ano devem ser maiores que a média dos últimos anos, mesmo com uma arrefecida no consumo, que estava frenético. O fato é que o Brasil produz muita matéria-prima e alimentos, ninguém produz tanto disso quanto nós. Matéria-prima até dá para parar de consumir, mas comida, isso não. Penso que continuaremos com nossas safras boas (mesmo que com crescimento menor) e com nossas exportações em alta. Eu vejo para os próximos anos um mundo que precisará se curar das feridas da Crise, do desemprego causado por ela, das maculações do mercado por causa da intervenção imensa do Governo e, por conta disso tudo, com um ritmo de crescimento menos. Ritmo este que será puxado ainda por China, Índia, Brasil, Rússia, África do Sul e outros rebentos dos dias atuais. A China vai crescer menos do que as taxas escrotas de 11 ou 12% de hoje, que devem ser de 7 ou 8%. Os demais também terão redução no crescimento, incluindo nós. Mas então como é que eu digo e repito que vamos nos dar bem? O fato é que o mundo vai crescer menos, mas ainda vai crescer um pouco. E que o Brasil, pelos próximos anos, deverá crescer acima da média mundial. Isso dará um fôlego danado ao país para, quando o mundo se recuperar totalmente daqui a uns 10 anos, o Brasil dar a sua guinada e abocanhar a sua fatia da pizza chamada futuro.

Até lá teremos quase toda a população online (mesmo que em Lan Houses) e com um pouco mais de anos de “estudo” no currículo. Agora eu entro na segunda parte deste imenso artigo, O Futuro do País.

Eu vejo que o problema não é o Brasil se tornar o país do futuro e sim quem seremos nós para o futuro do país.

Quando eu estava na quarta série primária, minha mãe brigou com a dona da escola onde eu estudava e, ao final daquele ano, fui transferido para outra. Ainda era uma escola particular, mas estes seriam os meus últimos meses. O fato é que eu, com 9 anos na quinta série (eu sei, eu era foda!), não me adaptei a nova escola e ia mal nos estudos. Fui tão mal que minha mãe me tirou no meio do ano e, para não ficar de bobeira, eu fui trabalhar no comércio da família. No começo não era nada tão fixo, ficava na padaria, atendia uns clientes e fui aprendendo o que era dinheiro. No ano seguinte fui para o colégio público. Acordava, ia para a escola e trabalhava a tarde e a noite, até umas 20h. Quando terminei o ginásio, já com 14 anos, eu sabia tocar um mercadinho praticamente sozinho. Abria o comércio, fazia pedidos para fornecedores, pagamentos, cuidava do fluxo de caixa e entregava o salário de funcionários. Nessa época eu ganhava meio salário mínimo. Eu era adolescente e tinha grana como nenhum dos meus amigos da vizinhança pobre tinha. Tinha videogame 16bits! Veja, sem saber, eu estava sendo formado ali, no dia a dia do trabalho. Fui para o segundo grau num colégio do centro, me deslumbrei e depois de muitas namoradinhas, cervejinhas e escapadas de aulas, perdi o primeiro ano técnico em arquitetura. O ano seguinte eu abandonei no meio para trabalhar e focar para o próximo ano. Depois eu cursei todo o segundo grau num outro colégio público e foi moleza. Das três turmas formadas, só tenho conhecimento de que eu tenha prestado vestibular, feito faculdade, pós e até um pouco de inglês. Os demais colegas ficaram no segundo grau capenga mesmo. Alguns são vizinhos que eu encontro volta e meia na rua e quase todos estão trabalhando em empregos que nunca lhes oferecerão um futuro que possa levá-los à ascensão social.

Contei isso tudo para mostrar o tamanho do déficit educacional que temos e o desafio que teremos para os próximos anos. Eu consegui chegar aonde estou por que tive a sorte de nascer numa família de comerciantes, que me deram pelo menos o ensino básico particular e que me deram com muito trabalho uma grande noção de valor para o dinheiro. Mas aí eu pergunto: e os demais? E aqueles que se formaram comigo no segundo grau regado a boas festas e gincanas divertidas? E os que se formam hoje, em colégios que não reprovam de jeito algum? Meu único receio em relação ao nosso futuro como nação vem daí, vem do precário ensino público que temos para a maioria da nossa população. Espero que o Governo faça algo a tempo para corrigir isso, pois eu quero viver para ver o Brasil se tornar o país do futuro e para ver nossos jovens cheios de conhecimento e orgulho nos olhos se tornarem o futuro do país.