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Escrevi
O Primeiro Encontro – Conto
Nov 6th
Ela veio. Não consegui reagir de imediato. Devo ter ficado uns dois minutos contemplando sua beleza através do olho mágico da porta. Ela tocava a campainha com aquele que eu defini de imediato como sendo o mais lindo dedo indicador com unha pintada de rosa que eu jamais vi na vida, e eu, de tão absorto em sua imagem, não ouvia. Só um sentido funcionava, somente a visão. E estava ótimo, não precisaria de mais sentido algum, se fosse para contemplá-la por toda a vida.
Toc! Toc! Ela resolveu bater na porta. E com isso, como o despertar de um sonho intenso eu volto à consciência e percebo, quase instantaneamente, o óbvio. Tenho que abrir a porta. A última fronteira, o último obstáculo que me separa de teu cheiro, tão sonhado e imaginado cheiro. Alguns pensamentos voam pela minha mente durante os rápidos segundos em que giro a maçaneta e abro a porta. Dou um conselho a mim mesmo: calma garoto, calma.
Eis que um sorriso estonteante se abre e eu, já recuperado do choque, retribuo e desculpo-me pela demora. Digo a verdade. Conto que sua imagem havia me paralisado atrás do olho mágico e ela abre um outro lindo sorriso, desta vez acompanhado da mais afinada das gargalhadas de todo o mundo.
Ela diz: – Acho que pessoalmente você pode ver melhor, não?
Nada posso fazer a não ser rir, concordar veementemente e convidá-la a entrar.
Meu apartamento não é um luxo, mas vive em harmonia comigo, ou seja, tem tudo o que eu sempre quis e é decorado detalhadamente. São apenas dois quartos, sendo um suíte, um pequeno corredor, banheiro social, ampla sala de estar – eram duas, uma de estar e outra de jantar, mas meses atrás demoli a parede e ampliei meu espaço -, cozinha americana e uma varanda aconchegante com uma bela vista. Percebo que ela surpreende-se com a organização, limpeza e aspecto leve da sala. Ela me diz que achou tudo muito bonito e que não esperava isso de um homem solteiro. Convido-a a sentar. Como já sabia que ela aprecia um bom vinho chileno, dias atrás já havia comprado duas garrafas de um tinto meio-sêco, uma destas descansava sossegadamente em um balde com gelo estrategicamente colocado a sua frente, as respectivas taças ao lado. Costumo ser bastante prático e racional, mas algo insistia em me dizer que por uma noite, esta noite, a emoção me dominaria por inteiro.
Ainda sem trocar palavras, sento-me ao seu lado, retiro o vinho do balde, abro e sirvo as duas taças. Ofereço um brinde. Erguemos as taças e concluo: – Ao primeiro encontro. Por um breve instante acreditei haver visto uma faísca passar pelos teus belos olhos castanho-esmeralda. Penso: “Deus, como é linda.”. Pele morena clara, cabelos ruivos e levemente encaracolados deitados sobre todo o corpo até a altura da cintura, dona de maravilhosos um metro e sessenta e cinco centímetros, boca carnuda, olhos vibrantes, rosto expressivo e seios deliciosamente perfeitos. Ela deixa um aroma quente, caliente, fogoso e cheio de tesão no ar. Sinto-me embriagado e sei que a culpa não é daquele ínfimo primeiro gole de vinho, a culpa é dela. Uma culpa gostosa, que percebo deixá-la radiante.
Conversamos um pouco sobre trivialidades. Ela me diz que adorou a decoração da sala e eu a convido para conhecer os demais cômodos. Voltamos e decido colocar uma boa música. Pergunto o que ela quer ouvir, e ouço a tranqüila resposta: – Quero ouvir a sua música romântica predileta. Pego de surpresa, concordo e coloco o CD na faixa pedida. A música é Your Love Is King de Sade. Pronto. Devolvida a surpresa, ela põe-se de pé, enche nossas taças e caminha em minha direção. Apenas quatro passos, mas eu juro que vi um desfile inteiro e particular em minha sala de estar. Uma deusa de saia curta, com belas coxas à mostra, salto alto, decote generoso e olhar fulminante. Ela diz: – Você me encantou e só estou aqui a trinta minutos. Dou-lhe um beijo. Um beijo quente, úmido, safado e delicado. Um beijo como a ocasião, o vinho, a música e a mulher pediam. E este fora apenas o primeiro, duma noite cheia destes.
Decidimos esquecer o jantar por ora e nos entregar ao vinho e à nossas bocas. Trocamos o CD pelo DVD, sala por quarto, sofá por cama. Só não trocamos o vinho, nosso cúmplice etílico e envelhecido do momento sublime do beijo e do amor.
Como dois adolescentes carentes e insaciáveis, entregamo-nos sem pudores um ao outro. Os beijos agora não contentavam-se apenas com a boca do outro, os beijos eram vorazes e queriam mais. E assim demos mais. Uns beijos queriam orelhas e pescoços. Outros seios e barrigas. Os mais abusados queriam o sexo. E os beijos beijavam sem parar. Beijos maduros e firmes. Logo haviam roupas espalhadas por cada um dos quatro cantos do quarto e o DVD, este nós nem víamos ou ouvíamos mais. E as bocas, ainda não saciadas, deleitavam-se com os corpos e o vinho. Sim, o vinho, outrora cúmplice agora era um de nós e pintava nossas peles com sua escura rubra cor até encontrar alguma boca sedenta de sede e tesão.
Era sublime o sexo. Quente e descontrolado, mas ainda assim, maduro e consciente. Mesmo com o vinho entre nós, ainda consciente. O tempo, nosso inimigo, parecia dormir e os minutos eram horas e as horas, dias. Eu agarrava seus cabelos e recebia sorrisos e gemidos de presente. Mordia seios e ganhava arranhões de unhas rosas. Ela me engolia e eu lhe doava gritos de prazer. Não havia sexo melhor, este era o melhor. O suor que nos banhava era como combustível e nos mantia acesos e ainda insaciáveis. Mais sexo. Mais beijos. Mais vinho. Mais gemidos, sussuros, mais tesão. Quando a sanidade nos foi devolvida, quando os corpos estavam saciados e quando as bocas relaxaram, dormimos nus, agarrados e felizes.
E, somente horas depois da melhor noite de sexo de nossas vidas, voltamos ao mundo e despertamos de nosso sono sem sonhos. Ainda estávamos exaustos. Mais um beijo. Fomos nos banhar juntos e lavamos um ao outro como um pai ao filho, mas com o desejo explosivo de amantes secretos. Logo não era mais um simples banho, mas novamente sexo. Muito, muito quente. Tão quente que, nem mesmo a fria água a cair em nossos corpos, esfriava o tesão que queimava em nós. Ela enlaçou meu corpo com seu escultural par de pernas e, após fundir-se em mim, pôs-se a beijar-me loucamente. Nos amamos entre sussurros, gemidos e gritos, desconfortável, mas deliciosamente em meu box até o gozo de ambos. Nos rendemos ao mais prazeroso cansaço e terminamos o banho. O box com os vidros suados de nosso calor, exibia relatos escritos por nossas mãos que escorregaram sobre ele enquanto nos amávamos.
Fomos almoçar o jantar e bebericar nossa segunda garrafa de vinho meio-sêco chileno, que agora bebíamos em taças convencionais, afinal, já não éramos mais conquistadores. Já éramos conquistados. Pelo sexo primeiro, para depois quem sabe, pelo amor.
Leonardo Araújo, 23 de fevereiro de 2006.
Tenho alguns contos e poemas e percebi que eles ainda não estão aqui neste blog, só nos antigos que eu tenho arquivado. Relendo isso eu percebi também que preciso voltar a escrever. Espero que gostem.
Também na Casa do Galo
Jun 25th
A partir de hoje, e quinzenalmente às quartas-feiras, meus artigos podem ser lidos também na Casa do Galo, um dos grandes blogs/sites sobre propaganda e marketing da web nacional.
Clique na imagem abaixo para ir à Casa do Galo e ler o meu artigo de estréia.

A Era da Prostituição Profissional
Ago 27th
Ou O Futuro do País, dá no mesmo.
Enquanto eu ainda estava na faculdade, alguns professores e colegas que já atuavam no mercado, costumavam sempre dizer que nosso mercado publicitário é prostituído. No começo eu achava aquilo pejorativo demais, mas logo a ficha caiu e pude ver que eles, de fato, falavam a verdade. Não tenho conhecimento de causa para falar de outros mercados, mas do pouco que sei do nosso mercado, o baiano, posso dizer que esta prostituição profissional é como vários cânceres, que se alojaram em todas as partes e passaram a infectar todas as outras demais. Claro que sempre haverá empresas idôneas e profissionais “de responsa” que não se permitirão entrar nessa onda, mas o que dizer das centenas de “profissionais” que as faculdades vomitam no mercado todos os anos? Como se comportarão estes novos publicitários e mercadólogos? Irão eles parar na esquina do nosso mercado? O pior é que eu vejo que sim. Muitos destes, quando ainda querem continuar na profissão, estão indo para o caminho da informalidade e passam a oferecer seus serviços a preços de banana (nada contra o quitandeiro).
Quando eu apresentei meu projeto de conclusão de curso, em novembro de 2005, estava decidido a estudar mais, aprender mais e a tocar minha vida dos mercados corporativos de comunicação. Era a minha opção. É ainda a minha busca, por isso encarei logo na seqüência o MBA em Marketing. O triste é que muitos daqueles que se formaram comigo hoje estão sem emprego, com subempregos (entenda aqui empregos de nível médio e sem perspectiva de crescimento), ou decidiram arriscar e abrir sua própria agência de comunicação. Alguns se deram bem, muitos patinam, outros tantos se deram mal. Claro que a qualidade destes profissionais influencia em todos os aspectos e, muitos deles (a maioria), eu, por conhecê-los, não chamaria para trabalhar comigo. É como em qualquer profissão, muitos só querem o diploma e acham que assim um excelente emprego cairá em seus colos. Ledo engano.
O que fazem hoje todos estes profissionais formados? Muitos se tornaram, usando um termo muito vulgar, mas válido, prostitutas comunicólogas. E prostitutas baratas. Não estou aqui os comparando com garotos e garotas de programa, que muitas vezes são formados, trabalham, ganham bem e estão nesta vida por opção. Estes de que falo o fazem por falta de opção mesmo. Uma marca por R$ 50,00. Com todos os direitos liberados, diga-se. A criação de um outdoor e o plano de mídia por R$ 80,00. Quem dá mais? Quem dá mais? Pior que ser um mercado prostituído é ser um mercado prostituído que se vende por papel de bala e troco de pipoca.
Sinto que estamos caminhando para o colapso profissional total em quase todas as áreas do conhecimento. A faculdade no qual me formei, atendia, na época, cerca de seis mil alunos, hoje, menos de dois anos depois, são mais de onze mil. Imagina amanhã?
É loucura pensar que teremos mercado para absorver todo este contingente de profissionais, mesmo para vagas de estágio. Com a probabilidade de o país crescer cerca de 5% ao final deste ano, fica a expectativa para os meses de dezembro, janeiro e fevereiro. Mesmo assim, acho que nem com o país crescendo às taxas da China esse povo todo teria espaço. Quando começar a caça por talentos e as vagas das empresas estiverem abertas, mais uma vez veremos uma enxurrada de currículos voarem por todos os lados e a maioria deles ir parar no cesto do lixo.
A renda da classe média fica cada vez menos média e mais mínima. Hoje um casal com nível superior e pós-graduação dificilmente consegue uma renda familiar superior a três mil reais. Como pagar apartamento, supermercado, energia, telefone, água e ainda ter um pouco de lazer? Como comprar uma boa roupa?
Não posso aqui afirmar que as coisas estariam diferentes se outro estivesse no poder no lugar do Lula. O fato é que eu, cá eu, estou muito insatisfeito com tudo o que tenho visto. Votei nele, não por achá-lo com, mas por não ir com a cara do Alkmin. Sabe a história Ali Baba e os Quarenta Ladrões? É a mesma história, só que tupiniquim. O titulo seria mais ou menos Lula Não Sabia e tinha Quarenta Mensalões. E ainda me vem o tal do Dirceu, dizer na entrevista deste mês para a Playboy, que não existiu mensalão. Só faltou ele afirmar que o que existe mesmo é Papai Noel e o Coelhinho da Páscoa.
Voltando. Subsídios, quando há, são para os mangangões. Nada que ajude a indústria a contratar, os juros são o olho da cara, impostos então, nem se fala. Ah, mas arrecadaram só 900 BILHÕES DE REAIS. E isso dá pra quê? Uns 40% para pagar salários deles e dos aposentados (uns 30% só pra eles, se vacilar). E o resto para os bolsos deles e o resto do resto para saúde, infra-estrutura, educação, segurança, etc.
Vejo alguns criando movimentos cansei disso, cansei daquilo, fora Maria, fora João. E no entanto não vejo solução. Coitado foi o Collor, pois daquela vez eles (os próprios de hoje, salvo os já enterrados) conseguiram mobilizar a massa pública. E dessa vez, quem irá mobilizar a massa pública quando o que eles mesmos querem é que todos nós fiquemos calados e de bunda aberta para o ar? Acho difícil que, sem a presença de uma liderança que se faça ouvir no povo (não contemos com o Lula para isso, ele não vai contra os seus), algum movimento possa ganhar corpo forte o suficiente para fazer algo de concreto pelo país.
Saco! Queremos mudança, queremos emprego! Como então poderão viver estes profissionais se não se prostituírem? Eu não vejo luz no fim do túnel. Eu não vejo nada no fim do túnel, nem mesmo o túnel. E o pior, acho que ele caminha para não ter fim. Cá vou eu, continuar a estudar para lutar para não precisar cair no ramo. E você, caro(a) leitor(a), faça o mesmo. Não acho que algum destes bezerros tenha o mínimo interesse em fazer algo por você, por mim, por nós. Só o que olham são seus próprios bolsos. É torcer pelo país para que ele não entre em guerra civil daqui a algum tempo. E olha que eu costumo ser otimista quanto ao futuro do nosso país. Mas pelo que tenho visto, ou melhor, pelo que não tenho visto, vai continuar a ser foda.
Este é só mais um artigo-desabafo, dentre os milhares que temos visto, todos os dias, em todos os cantos do país.
Um brinde
Jul 20th
De quando em quando a mente fervilha em busca de reconhecimento e satisfação. Tem sido vã a tentativa deste chip neural em produzir motivação e ânimo novos, portanto, cada centelha de nova possibilidade alimenta a caldeira, que mesmo fraca e morna, insiste em continuar a produzir brasa.
E assim os dias vão se sucedendo como as faixas brancas de uma avenida, sempre iguais e infinitas. Acho mesmo que ainda tenho forças por que o amor permite o equilíbrio e a calmaria necessárias após as tormentas mentais produzidas pelo tédio e pela descrença nas pessoas e organizações.
Como uma mosca tonta e cega, tateio inutilmente oportunidades possíveis, mas previamente fechadas para mim. E aí sim, as caldeiras se inflamam de indignação e o desejo de mudança torna-se mais vívido do que nunca. Como lê-se sempre em contos juvenis, uma nova era se aproxima e, com ela, caminhos mais intensos e ricos ou dificéis e vazios surgirão. Mas como ver o momento e onde pisar ou por onde voar se cegam meus olhos e podam as asas? Mais uma pedra, pedregulho ou montanha no caminho e lá vou eu a escalar e cair e ralar a pele e enxugar o suor e levantar novamente e seguir em frente. Não conseguirão manter-me ao chão, caído.
Sabe a história do milho? Ele necessita ser provado e lançado ao fogo para demonstrar todo seu potencial, que é ser pipoca. Nesta nova era muita coisa ainda é velha, mas aos poucos os espaços vão surgindo e o novo ganha dimensões antes inimagináveis. O cordão umbilical está teso e prestes a se romper. Faço força, mas percebo que ainda falta algum tempo para maturar as idéias, eliminar os obstáculos e alçar um novo vôo.
Ah, falta pouco. E eu quero tanto assustar a todos. Aos amigos, um brinde. À vida, um brinde. Ao amor, à luz de velas, um brinde. Ao futuro, um brinde. Ao seu sucesso, um brinde. E ao meu, antes que chegue ao fim o vinho, um brinde. E claro, beba com moderação.





















