A renovação política de Salvador


Alguns candidatos, do alto de sua prepotência e ego, se acham eternamente elegíveis. Não percebem eles que o povo começa a tornar-se crítico e a buscar alternativas àqueles feudais políticos de antigamente. Alguns anos atrás vereadores se elegiam e dificilmente saiam da câmara novamente. Isso mudou e muito em Salvador. Dos atuais 41 vereadores, apenas 46% conseguiram se reeleger, ou 19 deles. Os outros 22 vereadores ou perderam nas urnas ou perceberam que não teriam chances e nem disputaram o pleito. É uma mudança significativa para uma capital como Salvador. E o mais interessante é que praticamente todos os novos eleitos são políticos “virgens”, ou seja, os partidos terão que ralar muito para tornar as suas novas crias políticos de fato. Se compararmos os vereadores eleitos em 2004 com os vereadores eleitos em 2008, teremos a real noção da mudança. Muitos vereadores “de carreira” cairam fora da lista de eleitos.

Dos que se reelegeram, alguns mais que dobraram seu número de votos, como o Alan Sanches, que teve 7.427 votos em 2004 e agora recebeu 15.206 aprovações, deve estar fazendo um bom trabalho, mesmo que seja de marketing político. Fora este e um ou outro caso, praticamente todos os demais reeleitos tiveram menos votos. Ou isso foi culpa do maior número de candidatos (só do meu bairro tinham 18 concorrendo!) que foram quase 900 para 41 vagas neste ano ou o povo realmente não está tão satisfeito com seus vereadores.

Ainda temos alguns candidatos que se elegem sem ter a mínima idéia do que é ser vereador e de qual é o trabalho de um parlamentar, mas eu ainda tenho fé de que isso um dia irá mudar. O caso mais célebre desta eleição é o do candidato Leo Kret, travesti que foi dançarino de pagode de uma banda local e que fez relativo sucesso entre as classes mais populares da cidade. Ele foi eleito com incríveis 12.861 votos, o que fez dele o 4º vereador mais votado para a câmara de Salvador. Ele diz que vai lutar pelos direitos dos homossexuais, dos artistas e do “povão”. Espero que todos os críticos estejam errados e que tenha uma boa atuação parlamentar. Na última sexta-feira saiu uma pequena entrevista com ele no Jornal da Metrópole e o jornalista fez uma pergunta intrigante para Leo Kret. Ele perguntou qual banheiro o parlamentar irá usar na câmara, se o masculino ou o feminino. A resposta foi interessante, ele disse que é “socialmente uma mulher” e que já usa banheiros femininos e que vai continuar a usá-los. Daí eu acho que pode vir a primeira confusão do mandato, é esperar para ver.

Já na briga pela prefeitura, pela primeira vez desde que eu me entendo por gente, o DEM (ex-PFL) não disputa o segundo turno. Isso demonstra uma verdadeira mudança política regional. Dois anos atrás, quando Wagner se elegeu governador no primeiro turno, a euforia foi gigantesca para os partidários do PT. Naquele momento alardeou-se a queda do chamado Carlismo e a maior derrota política do então senador ACM. A cena dele cabisbaixo tornou-se ícone daquela eleição.

Desta vez a disputa está rachando aliados. De um lado do ringue temos Geddel Vieira Lima, que anseia tornar-se o novo coronel da Bahia apoiando João Henrique, e do outro Wagner, que quer consolidar a força do PT local com a eleição de Pinheiro. No meio disso tudo temos Lula, que não pode rachar com o PMDB de Geddel por causa do seu apoio nacional e que não pode deixar o PT desamparado correr o risco de perder a eleição. Como este embate vai terminar eu não sei, mas o produto de tudo isso será, sem dúvida, uma Bahia e uma Salvador cada vez menos dominada por um ou outro grupo político. Cada vez mais autônoma. Quase como sendo terra de ninguém. Se isso é bom ou ruim, só o tempo dirá.

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