TELEANÁLISE – Malu Fontes
A morte do garoto carioca João Hélio, arrastado pendurado em um carro durante um assalto, serviu para trazer aos telejornais, sobretudo os de linha editorial mais sensacionalista, uma horda de reacionários defendendo as mais duras medidas policiais e jurídicas. Os reacionários são sempre nostálgicos. Acham, estão convencidos disso e querem nos convencer, que, no passado, o mundo era um lugar absolutamente aprazível, feito de manhãs cantantes, muita paz, generosidade e fraternidade entre os homens.
Já que, para eles, o presente tornou a vida e o mundo um inferno, é preciso intervir com força armada e leis duras para que voltemos a um suposto passado idílico. Mesmo que, para isso, tenhamos de instituir, inclusive, a pena de morte. Os mais contidos não chegam a defendê-la. Fixam-se na tese de que a solução para a violência é entupir as cadeias de garotos imberbes. Garotos que o Estado brasileiro, mais ocupado com seus dutos da corrupção, não consegue educar, não consegue sequer tirar das ruas.
MORTOS – Embora sempre se considerem espertos, os reacionários parecem ingênuos. Acham que , por decretos, desses que autorizam o Estado a ser ainda mais violento e burocrático, vamos resolver todas as mazelas sociais do país. Talvez por conveniência, costumam não enxergar nem muito além nem muito aquém de suas teses. Ninguém viu, por exemplo, nesses dias de intenso debate sobre redução da maioridade penal ou sobre a defesa da pena de morte, um reacionário desses de plantão nos telejornais ou nas revistas eletrônicas televisivas atacando uma autoridade governamental pela sua incapacidade de retirar das ruas um exército de crianças famintas, maltrapilhas e pedintes , dessas com as quais cruzamos em cada sinal de trânsito.
Quem é capaz de adivinhar onde esses meninos e meninas estarão, em um futuro breve, a persistir o imobilismo do E stado? São três as opções mais prováveis: mortos (vítimas da própria violência social da qual são produto), presos (improdutivos e consumindo recursos retirados pelo Estado de cada cidadão) ou cometendo violência nas ruas. Aqueles que escaparem dessa triangulação previsível terão desafiado e vencido a lógica natural de suas vidas.
MANOEL CARLOS – Outra característica dos reacionários é a tendência à comoção quando ela atinge pessoas de uma melhor condição social. Nos últimos anos, o Rio de Janeiro, por exemplo, assistiu a incontáveis crimes, chacinas, envolvendo gente muito pobre, cujos cadáveres são transportados em carrinhos de mão e não raro são esquartejados. Dificilmente essas mortes motivam passeatas na zona Sul da cidade, dessas nas quais se soltam pombos brancos e que têm suas imagens incorporadas às tramas politicamente corretas de Manoel Carlos.
A morte de João Hélio acendeu um movimento reacionário no país e o que não tem faltado na TV são telespectadores excitados pedindo, em programas policialescos, a pena de morte, a tortura e atitudes na linha lei de talião. Na mesma semana em que isso ocorre, o mundo da política e da Igreja Católica iniciaram um outro debate que também caiu no fosso reacionário: a defesa do presidente Lula pelo uso da camisinha e a reação imediata da Igreja Católica.
DIVORCIADOS – Não bastasse a reação da Igreja por aqui, em escala mundial outra pérola reacionária surpreendeu muitos: o Papa Bento XVI, num retrocesso, atacou sem meios-termos os divorciados. Classificou os segundos casamentos com a singela adjetivação de “praga social”. E os católicos mais carolas que se debrucem sobre o latim, língua defendida pelo Papa para a celebração da missa. E depois há quem não consiga entender porque as catedrais da fé e seus tele-evangélicos madrugadores são sucesso de público. Mas como vivemos numa miscelânea de discursos non sense, o melhor de tudo é assistir a essas normas papais contra os divorciados nos telejornais e, no intervalo comercial, vermos um show da capacidade do catolicismo de se adaptar à lógica moderninha e nada reacionária: o anúncio do espetáculo Paixão de Cristo, em Nova Jerusalém (PE), é impagável.
Ao mesmo tempo em que anuncia Francisco Cuoco como um Herodes improvável e Grazielle Massafera como uma Maria Madalena louraça-gostosona, exibe um boneco de uma marca de palha de aço (a mesma que patrocina o BBB7) dançando desengonçado no papel de patrocinador, convidando-nos a rir do mercadinho da fé que, com uma variação aqui e outra ali, é tudo muito parecido: tudo é business e performance em nome do divino. Para coroar o anúncio, uma marca de peixe congelado, com nome de deus grego e ilustrado por um desenho medonho, brada: “o pescado da paixão”. Mais risível, impossível.
Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 18 de março de 2007.