Minhas Duas Vidas
Um dia, vi um sorriso tão lindo, mas tão lindo que me senti pequeno diante daquele deslumbre de beleza e alegria. Neste mesmo instante, morri. Foi uma morte calma e indolor. Morri flechado e, antes do meu último sussurro daquela vida velha e amargurada, pude ver o brilho de satisfação nos olhos de meu carrasco. Uso a palavra carrasco, mas martirizo-me por isso, pois não se deve nunca usar qualquer palavra feia para denominar alguém tão lindo, belo e libertador. Foram alguns breves e silenciosos minutos de morte, mas suficientes para apagar de minh’alma todos os sentimentos mofados, amores fracassados e remendados, paixões não vividas, ódios, rancores e todo o amargor que outrora carreguei impregnado em cada poro de meu corpo carnal e em cada minúsculo espaço de meu ser.
Então, eis que junto à suavidade de tua boca, um vazio quase completo e delicioso invadiu-me por inteiro e me fez perceber que algo novo e inédito acontecia. Estava retornando à luz. Senti como se houvesse em mim dezenas, centenas, milhares de arquivos vazios, limpos e puros apenas aguardando para serem preenchidos. Uns poucos continuavam preenchidos com sentimentos, esperanças, desejos e pessoas que remetiam à velha vida, outros, a grande maioria, estavam vazios e receptivos. Naquele momento entreguei-lhe uma chave, a chave de um dos mais importantes arquivos, daqueles comparados apenas aos mais maravilhosos de minha vida e permiti que tua vida o preenchesse.
Agora, agradeço diariamente àquele anjo cupido que mataste minha velha vida e deste-me a oportunidade de sentir tua boca e teu corpo e teu amor em mim. Ainda hoje tenho a bendita flecha atravessada em meu peito e peço aos céus que lá permaneça. E nesta nova vida só há espaços vazios para a doçura, beleza e calor que emanam de teu sentimento por mim.
E deste então não faço outra coisa senão amar-te.

















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